#13 JOANA ESPADINHA _conversa afiada

 

Estudou Direito mas isso não lhe bastou. A determinada altura da sua vida sentiu a necessidade de encontrar uma carreira que lhe permitisse explorar mais a sua criatividade e começou a estudar Jazz. Entre a universidade e a escola do Hot Clube, dividiu horários e paixões.
Não gosta de ter certezas ou de rotular a música porque inevitavelmente isso limita o ouvinte e a arte é maior que a limitação.

Depois do “Avesso” de 2014, JOANA ESPADINHA trabalha agora na pré-produção do seu segundo disco, que promete chegar até ao final de 2017! 

 

 

1.: Joana, terminaste o Curso de Direito mas a paixão pela música falou mais alto e, em determinado momento, decidiste estudar Jazz na Escola do Hot Clube de Portugal. Em que é que o Direito e o Jazz podem ser complemento um do outro?
Encontraste alguma forma de os conciliar?

O Direito e o Jazz são mundos realmente muito diferentes. Eu acho até que foi isso que me motivou a seguir o caminho da música, percebi que precisava de encontrar uma carreira que me permitisse explorar mais a minha criatividade. Acabei por conciliá-los em termos práticos, porque acabei o curso enquanto era aluna do Hot. Saía da faculdade e ia a correr para o Hot e depois regressava à faculdade mais motivada. A música era o combustível para eu aguentar o curso, porque realmente aquele não era o meu caminho. Posso dizer que foi uma loucura conciliar os horários, mas quem corre por gosto…

 

2.: Como foi para ti a experiência de estudares no Conservatório de Amesterdão e, no final, receberes uma bolsa da Fundação Keep An Eye?
Regressaste a Portugal uma Joana Espadinha diferente?

Completamente. Acho que sobretudo pela experiência de viver fora, sair de casa dos pais, trabalhar, ver o mundo… O Conservatório é uma escola incrível, com bons professores, um programa muito completo e que me pôs em contacto com muitos músicos de países diferentes do meu. Mas a experiência de sair do país e da minha zona de conforto foi muito mais que isso.
Em relação à Bolsa, foi-me atribuída para a participação num workshop de Verão com a cantora Fay Claassen, de quem gosto muito. Fiquei por isso muito feliz por me ter sido dada essa oportunidade.

 

3.: Referiste, numa outra entrevista e a propósito do teu primeiro disco Avesso (2014), “a minha música saltou o muro e eu fui atrás dela, percebi que não precisa da improvisação e da linguagem do jazz, mas esta vai ser sempre a minha escola, o porto seguro onde voltarei sempre”.
Avesso é um conjunto de canções escritas e trabalhadas por ti, que transcendem o jazz e se deixam envolver por influências pop e rock.
É neste encontro de géneros que sentes ter descoberto o teu lugar musical?

Eu acho que nós músicos, e os artistas em geral, estamos sempre em busca do nosso lugar, que não é estático. O “Avesso” é um momento preservado no tempo, em que a música aconteceu daquela forma. Um disco em que a minha formação jazzística era muito evidente, mas também as influências de outros estilos, como o Pop Rock, como disseste. Sinto que foi um disco de transição entre os dois estilos.
Neste momento a música que escrevo insere-se mais na Pop, mas daqui a uns tempos poderei regressar ao Jazz, gosto de não ter certezas. Continuo a cantar Jazz a convite de outros músicos, e enquanto professora, claro.
Acho também que é perigoso rotular a música que escrevemos, porque estamos a limitar o ouvinte, a dizer-lhe o que esperar. A música é maior que isso.

 

por: NÁDIA DIAS

 

4.: O que te trouxe Avesso que não esperavas?

Acho que a maior aprendizagem num primeiro disco tem a ver com os erros que fazemos e que não queremos repetir. É um bocado como um primeiro filho!
Neste caso, entre outras coisas, sabia ainda muito pouco sobre produção, e por isso há alguma crueza nos arranjos e na estética das canções, mas também acho bonito que assim seja. É o que é.

 

5.: Gostas principalmente do processo de escrita musical e dizes mesmo ter letras para mais de dez discos!
Estas letras surgem-te naturalmente, fruto de experiências do teu dia-a-dia?

O processo de composição, seja música, seja letra, é um vício para mim. Dá-me mesmo muito gozo compor. Em relação às letras varia muito: algumas são mais pessoais, outras sobre temas que me inquietam, histórias que observo. Acho que para nos inspirarmos temos que estar atentos ao mundo que nos rodeia.
Há temas que são recorrentes para mim: a “condição” feminina, a vida rotineira de quem trabalha, a escravidão do consumo, o nosso entorpecimento, e o amor, claro.

 

6.: Qual o teu próximo passo? Podemos esperar novo disco brevemente? Ou ouvir as tuas letras cantadas por outros artistas?

Estou neste momento a fazer a pré-produção do meu segundo disco, com o Benjamim (Luís Nunes), e estou a adorar1 Devemos gravar com a banda até ao final do ano, e serão, como no “Avesso”, só canções minhas.
Compus uma música para o disco novo da Sofia Vitória, “Echoes”, com um poema de Fernando Pessoa. E estou também a compor para outros artistas, que ainda não posso revelar. Fiz uma letra para um dos singles de “Cassete Pirata”, Outra Vez.

 

 

7.: O que esperas comunicar com a tua arte?
Espero, em primeiro lugar, que quem oiça sinta, se inquiete, se emocione. Isso é o mais importante. Gosto de ouvir música que me arrepie e que me faça pensar, por isso esse é sempre o meu objectivo.

 

8.: Fazes parte dos Cassete Pirata, que acabam de gravar a mais recente “Rádio Defusão” com lançamento previsto para 8 de Junho.
Como é fazer parte deste projeto composto por um grupo de amigos?
Muitos concertos e surpresas previstas para este ano?

A entrada para os Cassete foi muito importante. Em primeiro lugar porque a música que o Pir (João Firmino) escreve é incrível e muito original. Percebi logo que ía ser um projecto com muita qualidade e quis fazer parte disso.
Por outro lado, o facto de ser sideman. Sou teclista na banda e faço backing vocals e isso também constituiu em si uma grande aprendizagem. É a primeira vez que toco teclas num projecto!
Por fim, somos realmente todos amigos e damos-nos muito bem e isso faz muita diferença na estrada.
Temos um EP a circular, fizemos agora uma mini tour pelo país, e temos um concerto marcado para o dia 23 de Junho em Salvaterra do Extremo, Castelo Branco (Eco Festival Salva a Terra).

 

 

9.: Saía-te a sorte grande se um dia destes o Manel Cruz te ligasse e te convidasse para um dueto?

Claro! Há uma música no “Avesso”, Sem Rede, que foi como que um tributo aos Ornatos Violeta e especificamente ao Manel Cruz, que foi e é uma pessoa tão determinante na história da música portuguesa, quer como intérprete, quer como autor.

 

10.: Qual o melhor conselho que recebeste até hoje e que esperas poder passar a outras pessoas?

Acho que os conselhos soam sempre um bocadinho a cliché, mas posso dizer que alguém me disse uma vez que a carreira musical não é um sprint, mas uma maratona. “Ganha” quem foi persistente, constante e trabalhador. As bandas mais conhecidas estão cá há anos e muitas demoraram anos até serem bem sucedidas. É preciso dosear expectativas para entender e aprender com as frustrações e ser genuíno no que se faz!

 

INFO

Discografia 

Cassete Pirata, Cassete Pirata 2017
Avesso,
Joana Espadinha 2014

 

Próximos Concertos

Cassete Pirata – 23 Junho \ Eco Festival Salva a Terra 2017 _Salvaterra do Extremo, Idanha-a-Nova

 

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