#12 PEDRO BRANCO _conversa afiada

Se algum realizador pensar um dia fazer um filme sobre a sua vida, a música para a cena culminante está escolhida. Music for Strings, Percussion and Celesta porque a sua vida “tem tantos altos e baixos e pode ser tão intensa mas tão monótona ao mesmo tempo”.
A música aconteceu-lhe naturalmente e hoje sente-se um pássaro feliz com projetos que o enchem de orgulho.
Trocou Lisboa por Amesterdão onde atualmente vive mas a música, essa, continua a fluir entre as duas cidades. Branco|Sousa|Marques, Branco|Custódio|Moniz, Pedro Branco e João Hasselberg, Oh! Calcutta!, Pedro Branco Quartet e Eel Slap! são alguns dos seus orgulhos atuais, onde integra enquanto guitarrista e compositor.
Para PEDRO BRANCO, ainda lhe falta tudo.


1.: Foi-te simples e natural reconheceres o teu dom para a música e sentires que este seria o teu caminho?
Foi um processo natural sim, não sei se simples. Quando comecei a tocar guitarra comecei como qualquer miúdo começa, começou por uma inexplicável atração que se transformou na minha vida diária e quase obsessão. A decisão de dedicar a vida a isto pode-se dizer que tenha sido natural porque nem dei pelo tempo passar, simplesmente era algo que tinha de fazer. De decidir começar a estudar Jazz a um nível superior até ao dia de hoje em que tenho alguns discos gravados parece que se passaram horas apenas. Quanto a ter um “dom”, não sei se foi necessariamente isso que aconteceu. Não acho que tenha um dom, todos os dias tenho as mesmas dúvidas que (quase) todos os músicos que conheço têm, “será que devia estar a fazer algo diferente?”, “será que estou a praticar a quantidade que devia?”, “é este o caminho certo?”, mas umas perguntas vão-se respondendo naturalmente, outras são uma constante procura que nos fazem encontrar outras respostas igualmente úteis.


2.: Depois da licenciatura na Universidade Lusíada de Lisboa, decidiste ingressar na licenciatura em Jazz no Conservatorium Van Amsterdam, onde atualmente és aluno de Mestrado. Foi importante para ti esta expansão e dissociação de Portugal?
Que diferença sentiste a nível de ensino e do quotidiano?
Foi super importante. A principal razão de querer sair de Portugal nem foi necessariamente pelo ensino, mas foi mais por uma consequência de saturação do meio jazzístico português onde me ia movendo. Sentia que não estava a encontrar pessoas a remar para a mesma direcção que eu, e isso fez-me procurar outras coisas noutros sítios. Curiosamente sair fez com que essas pessoas que tanto procurei me fossem encontrando e eu encontrando a elas (isto em Portugal). Agora sou um pássaro feliz com projectos que me enchem de orgulho e que quero desenvolver para conseguir chegar a novos patamares artísticos e criativos.

Quanto ao nível de ensino, senti algumas diferenças como é óbvio, são estabelecimentos diferentes e culturas diferentes. Há outra organização, existem alunos de todo o mundo, existe uma história longa de contacto e ensino do jazz. Existem muitas coisas a acontecer, existe uma Bimhuis. No entanto Portugal está acordado e as coisas parecem estar a acontecer, parece-me que a nova geração vai levar isto por um bom caminho.

por.: ÍNDIAS FERNANDES


3.: Em 2014 tocaste na Festa do Jazz do São Luiz com “Jacob Sacks Ensemble”, para o qual foste convidado pelo famoso pianista nova-iorquino. Em 2015 apresentaste-te no mesmo evento com o teu trio, juntamente com Demian Cabaud e Marcos Cavaleiro. Ainda no mesmo ano, fundaste o “Pedro Branco Quartet” com Allison Philips, João Hasselberg e Luís Candeias; projeto que originou o EP Dawn Of The Moose, lançado em Novembro do ano passado.

Como te adaptas a toda esta evolução? É-te notória ou só a sentes quando pausas para uma retrospetiva?
Só uma pequena correcção: não fui convidado directamente pelo Jacob Sacks, creio que o convite surgiu da parte da organização da Festa do Jazz, visto o concerto ter sido o resultado de uma semana de residência artística do pianista. Muito gostava eu de ter sido directamente convidado pelo Jacob!

Esta evolução aconteceu toda muito rapidamente e de forma natural como respondi na primeira questão. Simplesmente comecei a tocar com mais pessoas e a desenvolver um pouco mais a minha personalidade musical e artística o que resultou num interesse maior de alguns músicos em tocar comigo. Esse quarteto foi uma das experiências mais enriquecedoras que tive até agora, foi a primeira vez que levei a minha música original como líder, que gravei, que toquei no Hot Clube em nome próprio, que organizei uma “tour”, foi uma grande aprendizagem e estou muito grato aos meus colegas pela música que fizemos. No entanto sinto que tudo isto foram passos de bebé, há um longo caminho para percorrer ainda.


4.: Atualmente integras não só projetos de jazz como é exemplo o trio com João Custódio e Jorge Moniz, como o projeto de jazz/rock/folk com João Hasselberg que deu voz ao belíssimo Dancing Our Way to Death, ou ainda o projeto de post-rock/noise “Oh! Calcutta!”, com lançamento do “The Greatest Story Ever Told” em Fevereiro de 2016.

Para ti é importante este ecletismo musical a conviver em harmonia?
Sentes-te mais completo a explorar diferentes géneros musicais?
Não penso muito em géneros musicais, pelo menos quando estou a compor ou a levar música para alguns grupos. Penso nas pessoas com quem estou a tocar e na sonoridade que queremos explorar, mas a palavra “género musical” é coisa que me faz um bocadinho comichão, isso são rótulos para as rádios e para as fnacs poderem engavetar discos nas prateleiras. Todos os projectos em que toco são resultado de toda a música e todos os sons que vão na minha cabeça. Por exemplo, nesta pergunta descrevem o meu projecto com o João Hasselberg como jazz/rock/folk (e ainda deve haver outras coisas pelo meio). Quem ler isto fica sem ideia nenhuma do que vai encontrar, isto se não tiver ouvido nada a priori. É importante para mim ser 100% honesto com cada nota que toco e em cada performance, isso sim, o ecletismo é simplesmente uma consequência natural.  

Oh! Calcutta!

 

Pedro Branco e João Hasselberg por.: PÚBLICO


5.: Quem tem inspirado / influenciado o teu percurso musical e pessoal até hoje?

Nick Reinhart, Bill Frisell, Afonso Pais, Steve Lacey, Allison Philips, Kurt Rosenwinkel, Misha Mengelberg, Jesse van Ruller, Tristan Renfrow, Nels Cline, Ambrose Akinmusire, João Hasselberg, Demian Cabaud, John Coltrane, Louis Armstrong, Angel Olsen, John Steinbeck, os meus pais, Steve Lehman, Craig Taborn, André Fernandes, Louis CK, Christian Lillinger, Gonçalo Marques, João Sousa, João Lencastre, Lee Konitz, Paul Motian, Roscoe Mitchell, Jonathan Finlayson, Peter Evans, Kurt Cobain, Charles Ives, Richard Dawson, Daniel Johnston, Stanley Kubrick, John Hollenbeck, Jakob Bro, Jacob Sacks, Zach Hill, Bela Bartok, Thomas Morgan, Hank Mobley, Lee Morgan, Masabumi Kikuchi, Battles, Andrew Cyrille, José Mário Branco, Ornette Coleman.


6.: Há vontade de um projeto a solo? 

Tenho duas datas a solo para este Verão, sendo a primeira na SMUP Parede dia 23 de Junho. Vamos ver como correm. Se forem um desastre total é provável que continue.


7.: Paralelamente à tua carreira enquanto guitarrista, estás também ligado à fundação da editora “Flea Boy Records”. Como surgiu este projeto?
Este projecto surgiu em Amesterdão devido a uma necessidade de independência e controlo sobre a nossa música. Naquela altura a Allison Philips e a Liya Grigoryan tinham os seus EPs de estreia a sair e eu também tinha umas coisas que queria editar então basicamente decidi criar uma marca que conectasse as pessoas ao que estávamos a fazer. O meu principal objectivo era fazer com que sempre que as pessoas vissem a marca Flea Boy a associassem imediatamente a um determinado movimento ou sonoridade, e fazer com que se tornasse uma espécie de plataforma de armazenamento de informação que facilitasse o acesso à nossa música, quer ao público no geral quer aos programadores. Entretanto tivemos também o EP de estreia dos nossos amigos de Brooklyn Desert Foxx e o EP de estreia do meu projecto com o João Lencastre, EEL SLAP!, um duo de música totalmente improvisada. Temos mais alguns lançamentos na calha para breve também.

por.: JAZZ.PT


8.: Existe algum músico por quem davas a tua guitarra favorita por “dois dedos” de conversa?

Nem pensar, primeiro porque sou pobre (apesar de todas as minhas guitarras serem baratas) segundo porque de certeza absoluta que não iria ser assim tão interessante. No entanto dava dois dedos de conversa com um músico se ele me desse a sua guitarra favorita, aí sim, contem comigo.


9.: Que música escolherias para a cena apoteótica de um filme sobre a vida de Pedro Branco?
Vou responder a esta questão só para me poder referir a mim mesmo na terceira pessoa, coisa que muito me apraz. Assim de repente e sem pensar muito na coisa, e porque a vida de Pedro Branco tem tantos altos e baixos e pode ser tão intensa mas tão monótona ao mesmo tempo, escolheria Béla Bartók – Music for Strings, Percussion and Celesta.


10.: Como o tanto que tem constantemente acontecido na tua vida profissional nos últimos anos, o que ainda te falta realizar?
Tudo, mesmo! Falta-me tocar com quase todos os meus heróis, falta-me tocar nalgumas das principais salas do país, falta-me tocar nos principais festivais europeus, falta-me tanto conhecimento e tanta experiência ainda, falta-me tudo!


11.: Esta é a vida com que sempre sonhaste; a acontecer aqui e agora?
Se dissesse que sim estaria a mentir. Apesar de vivermos momentos eufóricos para o país (e viva o Benfica!), vivemos tempos tão conturbados e instáveis que dificilmente poderia dizer que estou a viver a vida que sonhei. Enquanto as pessoas não pagarem 10 euros por um disco, ou não pagarem 10 euros por um concerto ao vivo, ou não perceberem que a música (arte no geral) são actividades indispensáveis e fulcrais para a vida em sociedade e existência do ser humano enquanto ser com pensamento crítico, é difícil dizer que esta é a vida que sonhei. É claro que os obstáculos são ultrapassados de uma ou outra forma, mas existem muitas coisas que gostaria que fossem diferentes. Resta-me (resta-nos) encontrar o caminho a seguir e tentar arranjar as soluções mais viáveis durante o mesmo.

por.: MY SONY LIKES TO PLAY

 

INFO

Discografia 

Eel Slap! Vol. 1, Eel Slap! 2017
The Greatest Story Ever Told,
Oh! Calcutta! 2016
Dancing Our Way to Death, Pedro Branco e João Hasselberg 2016
The Dawn of the Moose, Pedro Branco Quartet 2016


Próximos Concertos

Branco | Sousa | Marques – 11 JunhoClube Farense, Faro
Branco | Sousa | Marques – 14 JunhoClube Portimonense, Portimão
Branco | Sousa | Marques – 18 JunhoCantaloupe, Olhão

Eel Slap! Ep release party –
22 Junho \ Sabotage, Lisboa


Ouve Pedro Branco:

https://ohcalcutta.bandcamp.com/releases
https://joaohasselberg.bandcamp.com/album/dancing-our-way-to-death
https://fleaboyrecords.bandcamp.com/album/eel-slap-vol-i

Sobre a Flea Boy Records:
https://fleaboyrecords.bandcamp.com

 

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